Danielle Transexual 2 — Capítulo 08 — Esmalte de maçã
Danielle acordou sentindo cheiro de café fresco, esfregou os olhos, ouviu uma musica baixinha e um cantarolar na cozinha, levantou-se cambaleando, Miriam preparava o café com calma, usando uma camisola transparente de Danielle
— Bom dia Maria Vexame! — Miriam disse ao se aproximar e dar um beijo na bochecha de Danielle
— O que houve? — Danielle perguntou preocupada, tinha lembranças turvas, parecia acordar de uma bebedeira
Miriam a observou com curiosidade e sorriu:
— Vai tomar um banho e vem tomar o café pra gente conversar um pouco — Miriam disse decidida
Danielle obedeceu, tomou banho, escovou os dentes e quando saiu Miriam já usava uma saia Jeans, também de Danielle e uma camiseta fofinha com um gatinho desenhado chamando Jesus em um balão de diálogo de quadrinhos, discretamente Danielle apertou os olhos julgando o sequestro da sua roupa, mas não disse nada.
Sem desenrolar a toalha ela foi ao quarto e começou a se vestir
— Nós vamos sair, coloca uma roupa legal — Miriam disse ainda da cozinha — Quero você princesa
— Vamos aonde? — Danielle perguntou desorientada
Miriam não respondeu
Quando se vestiu, uma calça cáqui com bolsos, uma que Fausto havia dado a ela para andarem no mato, com uma camiseta rosa choque justa e seu sutiã preferido de enchimento parecendo ter seios maiores, foi até a cozinha.
— Olha, que gatinha — Miriam disse se aproximando dela — Se você não fosse minha tia eu pegava — Abraçou Danielle com força e de forma demorada
— Sapata — Danielle falou baixinho com seu rosto amassado pelo abraço
Danielle sentou-se pegando a bota
— Não, não — Miriam disse — Coloca o salto, vai ficar mais gatinha
Miriam puxou o banquinho e sentou-se na frente da tia
— O que vai fazer? — Danielle perguntou
— Maquiagem, fica quieta — Miriam maquiou Danielle durante quase 20 minutos. — Pronto, agora tá linda mesmo
— Eu to igual você — Danielle falou ao se olhar no espelho
— Ou seja, linda! — Miriam guardou a maquiagem e foi para a cozinha soltou e sentou-se à mesa
— Come, nós vamos dar um rolê — Miriam disse animada
Danielle sentou-se também
— Onde vamos? — Perguntou curiosa
— Vamos ver a Priscilla — Miriam disse
Danielle fez uma careta encarando Miriam por alguns segundos e disparou
— Era para eu saber que é essa aí? É alguém da igreja? Amiga sua? — Danielle perguntou mostrando pouco interesse
— Não, cabeça, a sua psicóloga — Miriam disse
— Aaaahhhh — Danielle arqueou as sobrancelhas — Não tenho consulta marcada, a agenda dela é difícil de conseguir.
— Tem sim, é daqui a uma hora e meia — Miriam disse — Eu marquei, brigado de nada
— Mi, eu tô sem grana, não dá pra pagar isso agora até eu resolver — Danielle justiçou
— Eu te perguntei se você tem dinheiro Danielle? — Miriam perguntou de forma dura indo para o quarto
— Grossa! — Danielle disse e comeu um pedaço do pão
Miram voltou com duas bolsas e um sapato
— Se você vender isso aqui da o que uns trinta mil reais? — Perguntou se referindo as peças de roupa
Danielle se escondeu atrás do pedaço de pão
— Por aí — Respondeu envergonhada
— Tia, tem mais umas dez dessa, deve ter uns quinhentos mil reais de roupa, bolsa e sapatos naquele guarda-roupas, você não tem isso de patrimônio, seu carro vale o que sessenta paus?
— Você já sabe desse meu problema, o que você quer que eu fale? Que me humilhar é? Eu sou uma burra idiota sim se é isso que você quer ouvir — Danielle falou irritada já com os olhos cheios de lágrimas — Vai me levar na Priscilla pra ela falar como eu sou burra?
— Eu só quero que você tenha na cabeça que isso é um problema, da pra vender essas coisas? — Miriam perguntou
— Não sei, se a gente colocar no Mercado Livre sei lá — Danielle disse secando os olhos recém maquiados
Miriam se sentou ao lado dela
— Não é pra você chorar, é que eu to preocupada — Miriam disse carinhosa
— Cala a boca e come — Danielle disse emburrada, mas tinha um ar de aceitação de desculpas.
Comeram em silencio por alguns minutos, então Danielle pareceu se lembrar de algo, olhou para o dedo e viu o enorme anel dourado, olhou para Miriam
— Ai caralho eu voltei com o Fausto? — Danielle disse pensativa — Voltei puta que pariu
— Voltou — Miriam disse direta
— Eu transei com ele? — Danielle disse pensativa — Não, pelo menos não lembro disso
— Pelo que eu saiba não, ele não parecia tão animado sei lá — Miriam disse
— E o Fabio? — Danielle perguntou pensativa
— Ele te trouxe ontem de carro — Miriam disse ainda mastigando
Danielle olhou para ela e sorriu, corando
— Ai tia — Miriam entendeu — Vocês dois…
— Não, cala a boca, a gente foi no shopping só — Danielle disse se levantando e procurando o celular — Meu Deus — Correu até o quarto e pegou o celular, voltou olhando na lista de contatos, colocou a mão na boca
— O que foi? — Miriam perguntou
— Falei com ele ontem a noite — Danielle disse — Olha, quase 3 minutos de conversa
— O que tem? — Miriam perguntou sem entender
— Eu não tenho lembrança disso Mi, eu tô enlouquecendo, só pode — Danielle disse pensativa sentando-se com o olhar distante
— Esse é só um dos motivos que você vai na psicóloga hoje, ontem você teve uma crise de choro vergonhosa ontem por que era um traveco, lembra? — Miriam perguntou
Danielle corou e se encolheu na cadeira mordendo um pãozinho enquanto fazia que sim com a cabeça e olhava interessada para os pés da cadeira para disfarçar sua vergonha.
— Então, foi péssimo, e você voltou com o cara que te magoou muito — Miriam disse — O cara que te traiu
— Eu gosto dele — Danielle disse — Dói dizer isso, eu sei que sou corna mas eu gosto dele
Miriam revirou os olhos
— Tá bom então — Falou severa
Terminaram de tomar café e foram para a rua, Miriam não quis ir de carro pois era ruim de parar, resolveram ir de ônibus e metro, não tocaram mais nesses assuntos até chegada no consultório, aguardaram por alguns minutos.
— Danielle? — Priscilla chamou
Danielle se levantou e entrou no consultório
— Nossa, quanto tempo, como você está? — Danielle disse ao abraçar Priscilla
— Bom te ver, visualmente você está linda — Priscilla disse, sua cirurgia foi um sucesso total!
— Sim, foi! — Danielle disse apalpando o próprio rosto
Priscilla apontou um lugar para Danielle se sentar.
— Então Dani, a sua sobrinha está preocupada com você com o turbilhão de coisas que vem acontecendo, você foi pedida em casamento, teve uma síncope e ontem parece que teve uma ataque de disforia
— Ela te contou isso quando? — Danielle perguntou curiosa
— Ontem à noite, ela me ligou e conversamos bastante, por isso encaixei você nesse horário — Priscilla disse com seu tom compreensivo
— Ah — Danielle disse entendendo, respirou fundo — Eu tô perdida eu acho
— Em que sentido?
— Em todos — Danielle disse
— Me fale sobre o término — Priscilla disse — Você pegou seu noivo te traindo, certo?
Danielle se entristeceu e respirou fundo, colocou as mãos no rosto
— Certo — Respondeu com a voz abafa
— Perdoou ele, certo? — Priscilla perguntou direta
— Perdoei, mas eu amo muito ele — Danielle se justificou
— Não duvido disso — Priscilla completou — Ele não é o primeiro homem que te trai né?
Danielle afundou na cadeira
— Não — Falou seca
— Isso é normal? — Priscilla perguntou
Danielle deu de ombros
— Não sei para as outras, mas pra mim já aconteceu algumas veze e sempre dói e sempre é por uma mulher — Danielle disse — Sem ofensa, mas bucetas sempre fodem com a minha vida
Priscilla sorriu
— Essa foi a vez mais dolorosa que você foi traída?
— Não — Danielle engoliu seco — Não foi respondeu pensativa.
*** Anos atras ***
Danielle estava deitada de lado na mesa do estúdio de tatuagem de Ercílio, ele segurava as coxas dela com uma mão enquanto a outra apertava o bumbum e ele enfiava seu enorme e grosso pênis negro, o maior que Danielle havia visto até ali.
Ela sorria e gemia de boca aberta sentindo uma baba escorrer da boca enquanto se deliciava com a penetração grossa, a sensação de ser invadida era deliciosa, ela sentia o calor do corpo de Ercílio, como era molhado, como era duro, amava estar com ele, amava saber que ele a amava.
— Tá bom branquinha? — Ercílio perguntou, estava pelado, gostava de transar pelado — Tá gostoso hoje?
Danielle estava apenas com a saia erguida enquanto recebia o membro dentro de seu corpo através do anus apertado. Usava um estilo gótico com meias arrastão, botas e uma blusinha transparente colada com o sutiã negro visto por baixo.
Ela soltou o ar rindo
— Está ótimo amor — Ela falou quase miando — Não para por favor! — Não conseguia esconder o prazer que sentia
Ele obedeceu, aumentou o ritmo apertando-a com força
— Ai branquinha linda, eu vou me casar com você — Ercílio disse — Vou comer você dia e noite, noite e dia — Ele falou aumentando o ritmo
Danielle sentiu seu pau endurecer com as palavras dele, ele continuou com o pau duro penetrando-a sem piedade enquanto ela gemia baixinho.
— Vou te dar casa, comida, carro só pra você ser meu troféu, pra ficar de enfeite pra mim por que você é linda e eu te amo! — Ele disse de olhos fechados apalpando o corpo de Danielle
Ela sentia mais tesão nele falando isso enquanto ele aumentava o ritmo com firmeza e força.
— Me ama é? — Ela perguntou — Se ama fode, me fode vai! — Ela tocou o próprio pênis se masturbando devagar, estava muito gostoso.
Ela sorria e dava risinhos felizes de tanta alegria enquanto era comida com força por aquele negro gostoso e forte e forma apaixonada.
— Amo — Ele falou apertando ela — Você me ama?
Ela riu
— Mais que tudo no mundo — Respondeu meiga olhando para ele de lado enquanto o cabelo balançava bagunçado no rosto.
Ele enfiou a mão por baixo da camiseta dela e tocou seu seio puxando o sutiã dela. aumentou o ritmo, o barulho das coxas dele batendo na bunda dela era inconfundível, sons de amor, inconscientemente Danielle começou se masturbar devagar enquanto o namorado corria para liberar todo seu volume dentro dela
— Leitinho, leitinho, me dá leitinho — Danielle gemeu, sabia que ele adorava quando ela falava aquilo para incentivar e ele obedeceu — Vai amor, me dá bastante leitinho pra sua bezerrinha
Ercílio gemeu de tesão
Com estocadas fundas e espaçadas liberou todos os jatos de leite dentro de Danielle, ela acelerou a masturbação e também gozou nas próprias coxas
Ambos ficaram ali parados, ofegantes por quase um minuto enquanto ele entrava e saia dela devagar, causando espasmos descontrolados no corpo dela. Ele saiu de dentro dela, foi ao banheiro e voltou com lenços de papel, Danielle se limpou, ele a abraçou o pau meia bomba batendo na barriga dela.
— Te amo muito — Ele disse beijando-a na boca, fez ela se virar e passou a mão no bumbum dela — Deixa eu te marcar, escrever meu nome em você
— Aonde? — Ela perguntou curiosa
— No cóccix — Apalpou a região acima da bunda de Danielle — Vou escrever “Propriedade de Ercílio”
Danielle riu meiga
— Só quando a gente se casar, aí eu deixo você tatuar seu nome em mim — Danielle disse contente, por que aí eu vou ser sua de papel passado
Sentiu o pau de Ercílio pulsar, desceu a mão e segurou
— Não abaixa, não é? — Perguntou curiosa
Ele sorriu
— Você deixa ele assim, fico assim o dia todo pensando em você, quero casar com você para te comer de manhã, de tarde e de noite — Ercílio disse animado
— Também te amo e te quero — Danielle disse animada e carinhosa
Ela sorriu abraçando-o mais forte, deram um beijo e ele com facilidade a colocou sentada na maca de tatuar, ergueu a camiseta dela e chupou os seios diminutos
— Não amor, você já gozou, não mexe nos objetos da loja se não for comprar — Danielle brincou sentindo os mamilos sendo sugados com força
Ercílio parou, segurou o pau duro e mostrou pra ela
Danielle abriu as pernas levantando a saia, mostrando o pênis flácido, apoiou-se nos cotovelos
— Quer vir vem — Falou animada acariciando o próprio anu.
Ercílio não resistiu, se aproximou com o pau duro e penetrou Danielle novamente, ela gemeu de tesão, seu anus ainda estava sensível pelas estocadas anteriores e por também ter gozado, seu esfíncter ainda se contraía, mas era uma dor gostosa.
Durante quase vinte minutos ele a comeu na maca, sem dó, sem trégua, Danielle sentia o seu anelzinho queimar de tanto que Ercílio fazia atrito, terminou com ele urrando e gozando novamente, enquanto ela acariciava o peito dele e o incentivava a gozar
— Isso delícia, me enche de novo, gostoso — Ela falou animada — Vou pra casa e vou levar seu leite comigo!
E ele gozou muito dentro dela, riram abraçados sobre como ele conseguia fabricar tanta porra em pouco tempo.
Quando se recompuseram resolveram descer, Danielle resolveu voltar para a casa dos pais, já não ficava mais escondida, usava maquiagem abertamente e roupas femininas, mas não tão chamativas quanto aquela minissaia preta e botas plataforma, trocou de roupa e foi para casa.
O namoro deles deixou de ser secreto, Ercilio assumia Danielle abertamente como sua namorada e não tinha vergonha de falar que Danielle era uma transexual, o que deixava ela encantada, nenhum dos amigos dele mostrou aversão ou receio por ela. O namoro durou onze lindos e mágicos meses.
Por vezes Ercilio insistia em ir à casa dos pais de Danielle pedir ela em namoro oficialmente ou em casamento
Mas ela dizia que precisava estudar, que precisava trabalhar e antes disso não, mas quando eles fossem noivos podiam comprar uma casa juntos, um apartamento em outro lugar,
*** Dias de hoje ***
Danielle estava chorando
— Calma — Priscilla disse dando um lenço para ela — Então você amava o Ercílio
— Eu sempre amo os homens que me relaciono — Danielle disse limpando os olhos
— Tenho que admitir que estava com saudades — Priscilla disse pensativa
— De mim? — Danielle perguntou curiosa
— Das suas histórias com detalhes picantes — Priscilla disse
— Te da tesão? — Danielle perguntou curiosa
Priscilla sorriu e soltou o ar, estava vermelha, esfregou as coxas
— Muito, mas vou me controlar, quando chegar em casa pego meu marido de jeito, você faz bem para o meu relacionamento — Priscila disse brincalhona
Danielle sorriu, em meio ao rosto molhado
— Bom saber que eu faço bem para alguém
— E você tem duvida? Acha que sua sobrinha ligou pra mim de noite por que você é uma má pessoa? — Priscilla disse
— Não ela gosta de mim, eu amo ela também — Danielle disse pensativa
Priscilla deixou ela pensar por alguns segundos
— Mas vamos ao ponto — Interrompeu o pensamento de Danielle — Você contou essa historia, mas o que ela tem a ver com traição?
Danielle respirou devagar
— Por que foi a última vez que a gente ficou junto como um casal — Danielle disse pensativa segurando o choro — Eu acho que ainda amo ele — Chorou de novo no novo lenço que Priscilla havia dado. — Mas algo mudou
— O que mudou? — Priscilla perguntou
— Com a minha mãe — Danielle disse pensativa
*** Anos atrás ***
Danielle chegou em casa, feliz da vida, estava namorando, havia transado com o seu amor, um homem grande, viril que a amava que havia se declarado para ela, queria casar com ela e fazer dela a esposa.
Ela riu sozinha no meio da rua quando se lembrou dele e da alegria que sentia e se aproximava de sua casa, viu uma mulher saindo de dentro, com as unhas vermelhas brilhantes
— Esse esmalte é lindo demais Tereza — A mulher disse, ficou muito bom
— Sim, esse é importado que bom que gostou — Tereza disse já vendo Danielle se aproximar — Me indica de manicure para suas outras amigas.
— Pode deixar! — A mulher respondeu satisfeita
Danielle admirou a unha da mulher, deu boa noite passou sorridente para dentro de casa
— Momo — Ouviu a mãe falar assim que chegou no quintal de casa
A mãe mediu ela de cima embaixo, Danielle usava lápis no olho, estava com o cabelo longo amarrado e usava uma caça jeans e uma camiseta preta
— Oi mãe — Respondeu abaixando o tom da felicidade, não queria compartilhar aquilo
— Tem uma carta aqui escrito Danielle, é para você né? — A mãe de Danielle disse mostrando um pedaço de papel
Danielle tirou o papel dela
— É sim — Falou olhando para o envelope e rasgando-o para ter acesso o que havia dentro.
Eram algumas folhas de papel, fotos e algumas coisas que fizeram a expressão de Danielle mudar para séria
— O que foi? — A mãe de Danielle perguntou
Ela olhou para a mãe séria sem expressão, deu as costas e saiu portão a fora
— Onde você vai? — A mãe a segurou — Acabou de chegar, não vai jantar?
Danielle olhou para a mãe, abriu a boca e respondeu
— Eu preciso resolver isso, já volto — Falou indo em direção à rua meio sem sentimentos
— Momo? — a Mãe chamou, ela não atendeu — Moisés — A mãe chamou de maneira mais severa, Danielle parou por um segundo, mas continuou andando — Danielle!
Danielle parou e se virou
— O que foi? — Danielle perguntou nervosa
— O que aconteceu, você está pálida — A mãe disse — Aconteceu alguma coisa?
— É isso que eu vou ver, eu já volto, não demoro — Deu as costa e subiu até a rua de cima.
Danielle não sabe quanto tempo demorou, tão pouco se lembra do caminho que percorreu até chegar à casa do namorado.
Normalmente trocava de roupa e ficava bem bonita para ele, no estilo gótico, feminina, mas não estava daquele jeito estava “a paisana” como ela mesmo chamava.
Quando chegou no estúdio viu a luz acesa, sabia que ele tinha tatuagens marcadas para aquela noite, não era a principal atividade dele, mas a noite ele sempre tatuava.
Ela entrou no quintal e viu a mãe de Ercílio
— Oi menina, achei que você já tivesse ido, está tudo bem? — Thailane, disse
Danielle olhou para ela sem expressão
— Eu fui — Respondeu séria
Thailane franziu a testa, viu a expressão dela
— Tá tudo bem? — Perguntou preocupada
— É isso que a gente vai saber agora, seu filho tá aí? — Apontou para o andar de cima onde era o estúdio de tatuagens
— Está sim — Ela disse
Danielle apenas fez um sinal positivo com a cabeça e subiu a escada devagar, cada passo pesado como mil toneladas, com medo, com culpa, a garganta agarrada por um grito que queria sair.
Ela apareceu na escada e Ercílio a viu, usava uma máscara preta e tatuava a perna de um homem, quando viu Danielle ele tirou a máscara, mas não sorriu, parecia tenso, quando a viu a cor sumiu do rosto dele.
— Oi amor — Ele disse parecendo preocupado — Eu não sabia que você voltava hoje
Ela o observou, sem expressão, aguardou alguns segundos
— Sabia sim — Ela disse estendendo a carta para ele
Ercilio pegou o papel e seus ombros caíram, ele se levantou da cadeira
— Assim que eu terminar aqui a gente fala — Disse também sem emoção
— Você vai falar comigo agora! — Ela disse com uma expressão de ódio
— De boa cara — O homem sentado na maca se levantou num pulo — Resolve a treta aí que eu volto mais tarde.
Ercíio não respondeu, apenas observou ele indo embora.
Ele olhou o papel novamente, com cuidado, se apoiou no balcão procurando entender o que era aquilo e seu pensamento foi cortado
— Quem é Amanda? — Danielle perguntou seca
— É a minha ex namorada — Ercílio disse com o olhar baixo ainda estudando o papel
— Uma mulher — Danielle disse — De verdade?
— Ela é mulher sim, igual você é — Ercílio disse
— Ela tem uma rola também? — Danielle disse agressiva
— Não — Ercílio disse
— Então ela não é como eu porra! — Danielle falou de uma forma que Ercílio não gostava, ela ficava agressiva quando brigavam
— Por favor se acalma amor — Ele tocou o braço dela
Danielle sacudiu o braço violentamente
— Se acalma o caralho, tira a mão de mim porra! — Danielle gritou
Danielle apontou para o papel
— Me diz que tudo o que está escrito aí é mentira, que é uma piada, eu tô disposta a fingir que entendo você, eu sou trouxa e eu vou acreditar em você — Ela começou a chorar — Mente pra mim por favor — As lágrimas caíram volumosas dos olhos dela
Ele se aproximou e a abraçou, ela aceitou o abraço chorando no peito forte dele, ele respirou fundo, devagar.
— Eu fiquei sabendo um pouco antes de você chegar, eu não fazia ideia — Ele disse
Danielle sentiu alguém chegar
— Que grito foi esse? está tudo bem? — Thailane perguntou
— Tá tudo bem sim mãe, a gente tá se acertando — Ercílio disse tentando apaziguar
Danielle o empurrou e tomou o papel da mão dele entregou para ela.
Thailane olhou, franziu a testa e depois arqueou a sobrancelha supresa
— Parabéns dona Thailane — Danielle disse com o olho brilhando e os olhos vermelhos — A senhora vai ser avó, seu filho vai ser pai, não é o máximo? — Danielle soria de forma forçada, a tristeza transparecendo
Thailane tocou o braço dela
— Calma queria, não fica assim — Thailane sabia que Danielle era uma mulher transexual e que era incapaz de ter gerar um filho, então viu o nome em cima do papel “Amanda” — Ercilio de ama, vocês podem se acertar
— Não pode dona Thailane, eu pedi pra ele mentir, pra ele tentar me enganar que eu aceitava, mas ele não quer, nem tentou, ele não me quer — Danielle disse enxugando as lágrimas volumosas
— Filho, vocês conversaram? — Thailane perguntou
— Meu filho não pode crescer sem um pai mãe, eu ia conversar com ela amanhã, fiquei sabendo disso a poucos minutos — Ercílio disse entristecido
O ambiente ficou silêncioso
Danielle cruzou os braços, olhou para Thailane depois para Ercílio
— É isso — Parabéns papai — Danielle falou triste e se aproximou de Thailane dando-lhe um forte abraço, Thailane também chorou — Tchau dona Thai, obrigada por me aceitar tá bom?
Thailane apertou-a forte
— Fica com Deus menina, seu cuida tá, você é de ouro, desculpa por ele ter feito isso com você, me perdoa — Thailane falou de maneira dolorsa
Danielle desfez o abraço e viu as lágrimas no rosto moreno de Thailane, limpou com os polegares
— A senhra vai ser avó, e vai ser uma avó muito legal e bonita! — Danielle sorrindo de forma sincera
— E você? — Thailan perguntou nervosa
— Eu sou um traveco, eu vou morrer sozinha, meu destino é esse mesmo
— Dani, não é assim — Ercilio disse se aproximando
Danielle se virou e olhou para ele
— E como é? — Danielle perguntou
— A gente, nós — Ercílio gaguejou — Podemos
— Se você falar que a gente pode ser amigos eu vou dar uma mordida na sua cara, falar pra você ver como vai ser essa amizade — Danielle disse fazendo Ercílio se calar.
Danielle aguardou, mas ele não falou mais nada, apenas desviou o olhar parecendo derrotado, ela se virou devagar para dona Thailane
— A senhora não falhou, ele é mau caráter, ensina isso para seu neto se for um menino tá — Deu um beijo na bochecha de Thailane e saiu sem segurar o choro.
Parou no pé da escada e soluçou de desgosto, Thailane olhou para Ercílio
— Mãe — Ele disse baixinho
— Quer vergonha, eu não criei filho pra ser traidor desse jeito, olha o que você fez com ela, você não tem vergonha na cara? — Thailane perguntou severa — Olha pra ela Ercilio, você não disse que gostava dela?
— Eu amo ela — Ercilio disse — Mas… mas…
— Ela não é mulher né, é isso? — Thailane disse
— É — Ercilio disse — Eu gosto de mulher
Thailane se aproximou e bateu com as duas mãos no peito do filho com toda força que tinha, causando nada mais do que um solavanco fraco nele
— Eu não criei filho vira lata, vagagundo! — Thailane disse — Eu falei no começo disso pra você não iludir essa menina e você iludiu ela, se ela se jogar na frente de um carro eu vou botar na sua conta entendeu?
Ercilio não respondeu
— Você entendeu? — Ela gritou com ele
— Entendi — Respondeu envergonhado
— Você vai assumir a criança e vai ficar com a Amanda? — Thailane perguntou
— Vou sim — Ercilio disse quase num sussurro
— Então desce e fala isso pra Dani — Thailane disse
— Eu já falei — Ercilio disse nervoso
— Não falou, vai lá e fala isso na cara dela, você quebrou a menina olha como ela tá — Thailane apontou para o andar de baixo
Danielle estava encostada na parede com o olhar perdido chorando com a mão na boca tentando se conter, seu corpo todo tremia
Ercilio respirou fundo e passou pela mãe, desceu as escadas se aproximando dela e a abraçou.
Quando ela sentiu o abraço chorou alto
— Não me abandona por favor, eu te amo — Ela disse agarrando o pescoço dele — Não me deixa, por favor, por favor, eu faço o que você quiser — Ela falou se humilhando
Ele a esperou se recompor por algum tempo.
— Dani — Ele a afastou arrumando o rosto dela limpando as lágrimas — Olha pra mim
Ela olhou, os olhos castanhos grandes e brilhantes estavam vermelhos e trêmulos
— Presta atenção em mim — Ercilio disse fazendo ela olhar atenta para ele — Eu vou ter um filho, eu não posso abandonar essa criança
Danielle fechou os olhos sentindo uma dor no peito e as lágrimas descendo
— E eu? — Danielle perguntou nervosa
Ercilio não respondeu
Ela tossiu nervosa
— Eu te amo amor, não faz isso com a gente, eu te perdoo — Danielle disse — Só dizer que quer ficar comigo, a gente fica junto, eu não ligo, prometo que te ajudo a criar, só não me deixa
— Eu também te amo, mas eu vou voltar com ela amor, vou criar a criança junto dela — Ercilio disse — Meu filho não vai crescer sem pai.
Danielle sentiu as pernas amolecerem e quase caiu, Ercilio a segurou e a fez sentar no degrau da escada.
— E o que vai ser de mim? — Danielle perguntou mais para si mesmo do que para Ercilio, mas ele não respondeu.
Ela esperou alguns instantes e passou por ele
— Onde você vai? — Ele perguntou
— Não interessa, isso não te diz mais respeito — Danielle disse
— Menina — Thailane desceu a escada e pegou ela pela mão — Eu vou te levar em casa
— Não precisa dona Thai, eu vou sozinha — Danielle disse
— Não, eu levo você, você precisa pensar, não vou deixar você ir sozinha — Thailane disse puxando-a pela mão
Danielle entrou no carro dela, e encostou-se no canto quieta, fechou os olhos, por varias vezes Thailane perguntou se ela estava bem, Danielle apenas respondia com a cabeça. Quando chegaram na casa dela Thailane parou, Danielle abriu os olhos
— Como sabia onde eu morava? — Danielle disse ao ver onde estavam
— O seu namorado… o Ercílio me deu o endereço — Ela falou
Danielle não queria falar mais sobre ele ou sobre o assunto
— Obrigada — Falou abrindo a porta, saiu do carro e viu sua mãe
— Onde você tava? — Falou ao ver Danielle
— Oi, eu sou a Thailane — Thailane estendeu a mão para cumprimentar a mãe de Danielle
Apertaram as mãos
— Tereza mão do Moisés — Tereza disse
Thailane segurou a mão dela e olhou pra Danielle
— Entendi — Thailane disse devagar — Bem, eu já vou indo, só vim trazer ela
— O que aconteceu? — Tereza perguntou — Por que ele tá chorando?
Thailane parecia indecisa
— Obrigada por ter vindo, pode contar o que quiser, não importa mais, boa noite — Danielle disse entrando em casa.
Danielle entrou em casa, tomou banho. Vestiu uma camiseta rosa e um shortinho, roupas para dormir, mas que não deixava seus pais verem, não se importava.
Sentou-se na cama e abraçou os joelhos, quase de minutos depois ouviu batidas na porta.
— Posso entrar? — Tereza perguntou
Danielle não respondeu, mas Tereza entrou, andou devagar e se sentou na cama ao lado de Danielle, ficaram em silêncio por alguns minutos.
— Ela me contou tudo — Tereza disse sem olhar para Danielle, fez uma pausa — Danielle
— Hmmm — Danielle murmurou quando ouviu o nome
— Você estava namorando com o filho daquela moça? — Tereza perguntou com a voz fraca
— Há seis meses — Danielle disse sem paciência para se preocupar com qualquer consequência — Mas a senhora não precisa se preocupar, eu vou morar com o Tio Ariel.
Tereza ficou em silêncio por um longo tempo até tomar coragem
— Então você é gay mesmo? — Tereza perguntou à Danielle
Danielle soltou o ar dos pulmões rindo e enfiou a cabeça nas coxas abraçando as pernas, batendo a testa nos joelhos devagar.
Danielle ouviu um apito vindo da vozinha, Tereza se levantou e saiu, voltou um instante depois trazendo um carrinho e uma chaleira. Danielle observou por entre os joelhos, eram os utensílios de manicure de Tereza.
Tereza, a mãe de Danielle era uma requisitada manicure, estava sempre de unhas bem feitas e discretas, mas pintava as unhas das clientes nas mais variadas cores, aquele trabalho era um complemento importante para a família
Danielle ficou tentando observar o que a mãe fazia, mas não queria se mexer muito, não tinha vontade de se abrir ou se mostrar, viu quando a mãe colocou algo no chão e em seguida encheu dois potinhos de água quente misturando com água fria.
Levantou-se novamente e voltou com uma mesinha portátil, colocou na frente da cama de Danielle
— Vem, coloca os pés aqui — Apontou par ao chão
Danielle olhou, era uma bandeja com água quente
— Coloca uma mão aqui — Tereza disse sentada na cadeira do outro lado da mesinha, já com os óculos e preparando os instrumentos
— O que a senha vai fazer? — Danielle perguntou
— Vou fazer suas unhas, estão horríveis, ruídas, aposto que seu pé ta igual, tira a meia e coloca ele aqui, vamos!
Danielle se virou devagar, o rosto vermelho de lágrimas, limpou-se e obedeceu, quando água tocou seus pés era mais quente do que esperava, mas não se importou, aquela era uma atividade feminina, a mãe estava fazendo algo feminino com ela, era como um sonho, Danielle sentiu um arrepio na coluna, uma pequena felicidade em meio a tanta tristeza.
Colocou a mão em um dos potinhos.
Já havia ido na manicure, foi perto do trabalho, escondido, havia pintado as unhas, mas tinha que tirar o esmalte antes de chegar em casa, naquela ocasião as unhas estavam malfeitas, as do pé também.
— Se você vai fazer isso tem que cuidar das unhas, não tem cabimento eu ser manicure e você andar com elas assim — Tereza pegou a mão de Danielle e mostrou pra ela enquanto passava creme nas cutículas e hidratante nas mãos, repetiu o processo nas duas mãos e as colocou nos potinhos, saindo do quarto em seguida.
Danielle ficou quieta no próprio quarto, pés na agua quente, mãos na água quente, era confortável, gostoso, a sensação era incrível
— Oi — Ouviu a voz da irmã, Léia na porta — O que ta pegando? Ela entrou estranhando o que estava acontecendo — A mãe vai pintar sua unha?
— Vai! — Danielle respondeu radiante e com o rosto brilhando ainda molhado pelas lágrimas
— Oxe, o que foi, tava chorando? — Léia perguntou curiosa — Brigou com o negão?
A boca de Danielle se entortou numa carranca
— A gente terminou — As lágrimas brotaram de novo
Léia pegou uma toalha e passou no rosto dela
— Tá, para, depois você me conta — Léia disse olhando para a porta preocupada com a mãe
Tereza voltou com um creme hidratante, Léia sentou-se na cama ao lado de Danielle, não conseguia proteger Danielle de tudo, mas sempre tentava, por vezes era vitima de violência de seu pai junto com Danielle por simplesmente a apoiar.
Tereza esguichou hidratante na mão e passou nos braços de Danielle, ela se assustou e olhou para Léia, em seguida passou Hidratante no rosto de Danielle
— Tó abençoada — Deu o creme para Léia — Vocês duas estão parecendo umas velhas, vocês tem que ser a vitrine do meu trabalho, se eu tenho filhas de pele seca e unha mal feita como vão vir aqui fazer a unha e cuidar da pele comigo
Danielle arregalou o olho para a irmã, Léia passou creme no rosto e fez um gesto com o dedo nos lábios para ela se calar. Danielle concordou com a cabeça.
Tereza começou a cortar as cutículas de Danielle e a trabalhar nas unhas dela, mandou Leia deixar os pés em outra vasilha e as mãos em outras também pois ela seria a próxima.
Leia percebeu que o clima estava tenso, falou então do trabalho, disse sobre uma amiga da igreja e Danielle opinou se esquecendo que a mãe estava ali, falou normalmente com a sua voz feminina, aquele momento foi inteiro delas.
— Que cor você vai querer? — Tereza perguntou olhando para Danielle
Danielle olhou para ela como se fosse algo supremo, abriu a boca e sorriu, não sabia o que dizer
Tereza mostrou alguns frascos de esmalte
— Tem esse vermelho que você viu na Cida quando chegou, tem esse café, tem esse azul, tem esse preto
— Vermelho — Danielle disse — Posso?
Tereza sorriu e pegou o esmalte
— Eu também quero esse vermelho — Léia disse animada
— Não, esse é caro — Tereza disse — Só para ocasiões especiais
— Ah, e por que ela pode e eu não? — Léia protestou
— Por que sua irmã terminou com o namorado e tá triste — Tereza disse já pintando as unhas
Danielle começou a soluçar de choro, não por que estivesse triste com o fim do namoro, mas por que aquela dose de feminilidade atípica está sendo demais para ela, não esperava aquilo, já havia desistido de ser bem tratada, de ser tratada como queria dentro de casa, fechou os olhos e as lagrimas escorreram
— Oh Jesus, vai escorrer todo o hidratante — A mãe falou colocando a toalha nos olhos dela — Para de chorar!
Ela fungou com o peito quase explodindo, sem falar nada
— Vamos, fala, o que foi que aconteceu? — Tereza perguntou — Eu sabia que você tava namorando, vi você no Shopping com aquele rapaz grandão moreno — Tereza disse
Danielle procurou apoio no olhar da irmã, Léia mexeu os lábios sem emitir som “Fala”
— Eu… eu — Danielle gaguejou, tomou ar — Ele me traiu
— Com quem? — Léia perguntou — Você conhecia?
— Com a ex dele, chama Amanda, eu não conhecia — Danielle respondeu
— Quando foi? — A mãe perguntou tomando cuidado nas unhas para ficarem bem pintadas
— Descobri hoje na carta — Danielle disse — Voltei lá para perguntar se era verdade
— Eu não li a carta, o que ela disse? — Tereza olhou para Danielle curiosa
Danielle achou graça na curiosidade dela, a mãe nunca havia mostrado curiosidade por nada que Danielle fazia
— Na carta tinha o resultado de um exame de gravidez falando que o Ercílio era o pai — Danielle disse
— O nome dele é Ercílio? — Tereza perguntou esclarecendo a dúvida
— Que nome de velho, credo — Léia disse em desdém
— O seu é bíblico todo nome bíblico é velho — Danielle disse
— E o seu, o seu também é, Moisés! — Léia disse com desdém forçado, não havia maldade
Danielle percebeu que foi em tom de graça
— Danielle né? — Tereza disse
— É — Danielle e Léia responderam juntas
— Por que Danielle? — Tereza disse — Já vi gente te chamando assim, vi coisa sua escrito isso, por que Danielle?
Danielle piscou forte, olhou para a mãe, demorou uns segundos até falar
— Um homem que eu conheci mais nova — Danielle tinha que tomar cuidado, não queria contar quem era o homem, não queria citar a viagem de caminhão — Um professor — Mentiu — Disse que eu parecia com uma antiga namorada dele e ela se chamava assim, eu gostei — Danielle disse devagar
— Melhor que Moisés — Léia disse
— É bonitinho, quando eu estava gravida de você eu achei que seria uma menina, tinha até escolhido o nome — Tereza disse borrifando algo nas unhas de Danielle — Pronto, o que achou?
Danielle olhou os dedos admirada
— Ficou lindo, é brilhante parece uma maçã! — Danielle disse
— Mas é maçã mesmo! — Tereza disse mostrando o frasco com um desenho de maça escrito “Red Apple” — Você tem dedos cumpridos, unhas cumpridas, fica bonita pintada
— Eu quero vermelho também — Léia protestou mostrando os dedos
— Você vai comprar seus próprios esmaltes — Tereza disse e depois apontou pra Danielle — Você também se quiser que eu pinte compra os seus, não vão ficar gastando dos meus, ou me pagam.
Danielle sorriu.
— Mãe, qual ia ser meu nome, se eu fosse mulher? — Danielle perguntou curiosa
Tereza pegou as mãos de Léia começando a tiras as cutículas
— Miriam — Tereza disse dando atenção às unhas
— Miriam? — Danielle disse pensativa — É o nome da minha sobrinha
— É sim, não gosta? — Tereza perguntou olhando para Danielle
— Gosto — Danielle disse e encarou a mãe por alguns segundos, Tereza pareceu examinar o rosto dela
— Precisa fazer as sobrancelhas — Tereza disse e deu atenção às unhas de Léia
— Eu tenho medo dele não gostar — Danielle disse preocupada se referindo ao pai
Tereza respirou fundo
— As vezes eu me pergunto se isso foi culpa minha — Tereza disse quase como uma reflexão
— Disso o que? — Danielle perguntou curiosa
— De você ser assim, errado — Tereza levantou os olhos para Danielle — Não errado, mas assim como você é, eu não sei explicar
— Eu entendi — Danielle disse pensativa — Não é culpa sua
— Como você sabe? — Tereza disse — Eu queria uma menina para fazer par com a Léia, duas meninas lindas, sonhava com isso, tinha certeza disso, tive uma revelação de Jesus dizendo para mim que mandaria a minha Miriam, quando você nasceu como menino eu perdi um pouco da minha fé, mas depois seu irmão fez uma Miriam — Tereza falou desabafando — Ela é linda, amo muito aquela menina, mas acho que minha revelação foi falsa
— Mãe — Léia disse — Como foi falsa, olha pra ela! — Apontou para Danielle com o queixo — É a sua Miriam, só que com outro nome
Tereza olhou para Danielle por alguns segundos e depois sorriu
— Parece que Deus não erra né — Falou voltando a atenção às unhas da filha
— Eu também tive uma revelação — Danielle falou fazendo a irmã e a mãe pararem para prestar atenção nelas, então continuou — Naquele dia que o pai quebrou meu nariz, por que eu tava… — Ela demorou um pouco e continuou — Eu sonhei com Jesus, eu perguntei por que eu era errada, por que eu tinha sido feita em pecado.
— E o que ele disse? — Tereza perguntou curiosa
— Que o pecado depende de mim, que Deus não errou comigo por que Deus não comete erros e que minha missão é mostrar o amor e a tolerância entre os irmãos, e que eu devia seguir meu coração
— Mas a bíblia diz… — Tereza falou
— Não importa — Danielle disse — A bíblia foi escrita por homens de dois mil anos atrás com medos, inseguranças, ganancias e machismo. Eu não acredito que Deus queria que a gente obedeça os homens caladas sem dizer nada, isso é coisa que os homens escolheram colocar lá
— A Biblia é a palavra de Deus — Tereza disse
— Não, ela é a interpretação da palavra de Deus pelos homens de dois mil anos atrás, não vale para hoje, Deus é amor, ele não prega o ódio, ele não odeia os filhos dele por nada que é puro e eu sou amor mãe, não faço maldade com ninguém
— Você é tonta — Léia disse — Isso sim.
Tereza sorriu, voltou a cuidar das unhas, agora quase terminando, mas parecia pensativa. Ficaram em silêncio por alguns segundos
— Pedi pizza pra gente — Danielle mostrou o celular
— Obaa — Leia disse
— Faz devagar — Tereza disse
Danielle franziu a testa
— Faz o que devagar? — Tereza disse
— As sobrancelhas, faz um pouco por dia, deixa eu seu pai ver, vai de pouquinho para ele acostumar, quando ele perceber já foi, seu pai reage as coisas, então é só ele não ficar sabendo.
Danielle piscou forte, incrédula no que a mãe falou.
Tereza fez as unhas de Léia e pintou-as de branco sob protestos, em seguida fez as unhas dos pés de Danielle e de Léia, mas pintou apenas de base incolor, pegou a pinça e tirou alguns pelos das sobrancelhas de Danielle.
Só estavam as três em casa, o pai demoraria para voltar, o irmão estava em sua própria casa do outro lado da rua, as três conversaram, comeram as pizzas animadas e lá pelas onze horas da noite Tereza se levantou parecendo preocupada, diferente
— Tá quase na hora do seu pai voltar — Tereza disse para as filhas, parecia pensativa, atenta
Danielle se entristeceu
— Eu sei — Danielle pegou o vidrinho de acetona e começou a desfazer as unhas das mãos com tristeza
Tereza olhou para Léia e coçou a cabeça
— Dos pés você deixa, ele não vai notar. — Tereza tomou a acetona e o algodão e começou a tirar o esmalte com cuidado das mãos de Danielle — Então, o filho é dele
Danielle demorou alguns segundos para entender que ela falava do namorado, agora ex namorado
— É sim, ele disse que vai assumir — Danielle disse
— Que triste, sinto muito — Tereza disse pensativa — Ele era bom com você
— Era incrível comigo — Danielle fungou lembrando e sentindo uma dor no peito, parou de chorar quando levou uma batida no queixo com os dedos da mãe
— Não chora — Tereza disse — Chorar não trás homem de volta, homem não merece lágrima não.
A porta abriu, o pai chegou. Olhou para elas, não desconfiou de nada
*** Dias Atuais ***
Danielle terminou de falar, estava pensativa, parecendo distante
— Bem, eu recomendo que você volte a falar comigo — Priscilla disse — Precisamos falar mais, como você se sente?
— Eu me sinto bem — Danielle disse — Estranhamente bem
— Só de falar das suas coisas já te deixa leve né?
— Sim, deixa — Danielle disse
— O que você precisa é não se esconder, ser você mesma, não se tolir
— Meu namorado me traiu, pediu para voltar eu voltei com ele — Danielle disse
— E pelo visto você não quer isso — Priscilla disse
— Eu não confio mais nele — Danielle disse — Eu não quero namorar mais ele
Priscilla consultou as anotações
— Sua sobrinha disse que você tinha uma divida, e que isso era importante
Danielle colocou as mãos no rosto e apertou
— Aquela puta fica me lembrando disso — Danielle disse
— Fugir vai adiantar? — Priscilla perguntou
— Não vai — Danielle disse — Mas me da agonia
— Dani, tem uma frase, que eu acho que é filosofia budista ou provavelmente alguma coisa de boteco
Danielle entortou a cabeça prestando atenção
— É assim, existe algo que você possa fazer para resolver o problema? — Priscilla disse deixando um segundo para Danielle pensar e ela mesma continuou — Se tem algo, faça, se não, está resolvido. O seu objetivo de vida tem que ser buscar a solução, senão isso vai te atormentar
— Tem algo que eu possa fazer — Danielle disse pensativa
— Então faça para resolver, mesmo que não resolva imediatamente você tem que esgotar as possibilidades para isso não ficar na sua cabeça te atormentando — Priscilla deu mais um segundo — O nome disso é “Acrasia”
— Acrasia? — Danielle perguntou sem entender
— Sim, é quando você não é a soberana de si mesma, quando você não se domina e não faz o que tem que ser feito mesmo sabendo
— Entendo — Danielle disse — Eu preciso resolver isso então
— Faz uma lista, por que você tem muitas coisas para resolver, quer elencar?
— Tenho que resolver isso da dívida, tenho que falar com o meu ex… com o meu namorado e preciso falar com o Fabio
— O que tem o Fabio — Priscilla perguntou
— Ele tá muito a fim de mim, eu não quero magoar mais ele, ele foi em casa — Danielle respondeu pesarosa — Jesus.
O alarme disparou, Priscilla o parou com a mão.
— Nosso tempo hoje se encerrou, precisamos nos falar periodicamente, reservei horário para você na quarta-feira — Priscilla disse
— Obrigada Pri, mas eu preciso ver, não sei se posso — Danielle disse pensativa
— Já está confirmado, horário reservado, primeiro vamos resolver esse problema — Priscilla bateu na própria têmpora com o dedo indicador — Depois a gente resolve outros problemas
Danielle sorriu


