Diário de Rafaela 2 — Capítulo 53 — Reveillon
— Esse! — Amanda mostrou para Rafaela o vestido branco
— Que gracinha! — Rafaela disse pegando na cintura de Amanda — Amei, você escondeu de mim esse? Sua vaca!
— Vai que você queria tomar de mim — Amanda riu — E fica bem em mim esse
— Tá linda mesmo, amei — Natali concordou
O vestido de Amanda era comportado, fechado na frente até o pescoço mas com as costas completamente à mostra, haviam botões falsos na frente parecendo de leve um modelo chinês, a saia ia até os joelhos e era um pouco justo, usava uma sapatilha branca com meia calça branca
— Tá parecendo uma noiva — Rafaela elogiou — Nosso vestido de noiva vai combinar né, vamos juntas escolher
— Vamos sim, vai ser lindo, a gente pode fazer um detalhe espelhado — Amanda falou animada
— Vocês vão casar? — Natali perguntou surpresa
— Vamos ué, a gente namora pra isso mesmo — Rafaela respondeu
— Mas quando? — Natali perguntou surpresa — Tão já?
— Não — Amanda disse — Ano que vem eu volto pra faculdade e a bunduda também — Amanda cutucou a bunda de Rafaela
Rafaela deu um tapa na mão dela
— É, a gente vai terminar a faculdade, arrumar emprego e aí nos casarmos
— Vocês duas e o gostoso? — Natali perguntou
— Sim — Amanda disse
— Depende, se a gente tiver com ele até lá né manda? — Rafaela corrigiu
— Ah, vai sim — Amanda disse — Já já a gente se acerta amor, vai ver
— Tem eu, eu seria uma boa esposa também! — Natali falou se incluindo — Posso namorar com vocês!
— Você é minha cunhada — Amanda disse sorridente
— Mas eu posso, eu sou fofa também, sou gostosa também, vocês já me provaram
As três riram, mas Natali pareceu um pouco desesperada por carinho
— Gente, que absurdo — Amanda falou enquanto ajudava Rafaela.
Rafaela não tinha um vestido, era um conjunto, um body bem justo branco com uma saia curta e plissada com um casaquinho branco e tênis branco de lona.
Natali usava uma calça de sarja branca com alguns bolsos, com uma blusinha sem alças e usava um sapato de salto mais social, era roupa que ela já usava normalmente para o hospital.
As meninas já haviam auxiliado o jantar no decorrer dos dias e daquele dia inteiro, foram para a varanda e viram ao longe os barcos
— Ali Manda, os barcos ficam ali — Rafaela falou — Aí os fogos saem deles, como se fosse uma cascata de fogo é lindo lindo lindo! — Rafaela falou animada
— Dá até pra sentir o calor daqui — Natali falou animada
— Mas a gente vai assistir aqui da varanda? — Amanda perguntou animada
— Sim, lá da praia é muita gente e nunca dá pra ver nada, daqui a gente vê tudinho!
Guilherme chegou, vestia uma bermuda branca com um tênis marrom e uma camiseta branca, na cabeça um boné branco
— Deu um beijo na bochecha de Natali e um selinho em Amanda e outro em Rafaela.
Elas andaram pela casa e conversaram animadas, beberam batidas e caipirinhas sempre com moderação para não ficarem muito bêbadas, alguém havia trazido um Karaokê
Rafaela e Amanda cantaram as músicas da Pitty que tanto amavam, riam e cantavam com Rafaela desafinando em vários momentos engraçados.
Em um momento alguém da família perguntou se elas entendiam as músicas em inglês e Rafaela pegou o microfone começando a fazer traduções simultâneas, como estava cada vez mais bêbada ela começou a traduzir errado e se divertiram muito com isso.
Uma surpresa aconteceu, os pais de Amanda apareceram, junto com uma prima que ela gostava muito e não via a muito tempo, Rafaela ficou visivelmente enciumada, havia ouvido falar da prima, mas não conhecia, só havia visto de longe.
— Rafa, essa é a minha prima, a Roberta — Amanda apresentou à prima
Rafaela se aproximou receptiva e a beijou no rosto, já havia visto anos antes e sempre teve um certo receio da garota, mas não sabia explicar por que.
— Oi, bem vinda, sou a Rafaela — Sorriu ao seu aproximar.
Antes de se apresentar a mãe de Amanda interviu:
— Rafaela e Amanda são muito amigas, melhores amigas na verdade, mas a Rafaela não é da igreja
Roberta levantou as sobrancelhas, parecendo entender
Rafaela olhou para Amanda se contendo e Amanda sorriu
— Sim, a Rafa é a minha melhor amiga e também a minha namorada — Se aproximou de Rafaela e deu um beijo nos lábios dela abraçando-a pela cintura — Né amor?
Rafaela sorriu e concordou animada e emocionada pelo apoio de Amanda.
A mãe de Amanda deu as costas e saiu pisando duro sem falar com elas.
Roberta sorriu animada, havia compreendido a situação e não pareceu se incomodar com isso.
Era uma garota legal, lembrava um pouco Amanda, tinham os mesmos traços, nariz, olhos, boca e sua pele também era bem branca, roseada, mas tinha cabelos ruivos naturais, avermelhados como cobre, bem hidratados com cachos longos, era uma garota bonita e usava grandes óculos casco de tartaruga. Rafaela achou engraçado as sobrancelhas dela e os pelos ralos do braço serem da tonalidade vermelha.
As meninas foram para a varanda, tinham medo de perder seus lugares, sentaram-se nos bancos enquanto estava vazio, mas logo encheu de gente e ela se levantaram e pegaram bebidas, ficaram encostadas no parapeito, em volta delas se formou uma roda de garotos.
Os garotos que haviam recebido a punheta de Rafaela e de Natali e outros visivelmente interessados em Roberta.
Rafaela sentia-se entorpecida, estava feliz, tudo estava dando certo, o celular não mostrava nenhuma mensagem do seu padrinho ou tia, deviam estar comemorando com sexo ou estar dormindo já que eles não gostavam muito de datas comemorativas.
— Você tá bem amor? — Rafaela perguntou ao abraçar Amanda que estava sendo abraçada por trás por Guilherme
Rafaela beijou-a na boca em seguida beijou Guilherme também
— To ótima! — Amanda dançava devagar a música animada que tocava
— Sem dor? — Rafaela perguntou passando a mão na barriga dela
— Nada, desde aquele dia que chegamos
— Que ótimo! — Rafaela disse animada
Alguém gritou
— Tá hora, vamos lá!
Todos olhavam para a TV, já viam alguns poucos fogos no ar
— Cinco!
Rafaela pegou a mão de Amanda e deu pulinhos de alegria
— Quatro!
Sentiu a mão de Guilherme na cintura dela, olhou para ele sorridente e feliz
— Três!
Viu Natali se aproximar dela junto com Carlinhos, sorriu para os dois
— Dois!
Viu seus pais abraçados contando também
Era perfeito
— Um!
— FELIZ ANO NOVOOOOO! — O couro foi alto e forte, as vozes juntas pareciam uma gritaria de milhões se unindo com o povo da praia
Na cabeça delas explodiram serpentinas prateadas com papel ficado, Rafaela e Amanda não esperavam por isso, eram coisas de Natali, ficaram rindo felizes, Guilherme roubou um beijo de Rafaela, Natali a puxou para um abraço e beijo, ela cumprimentou várias pessoas e deu “Feliz Ano novo” mas faltava alguém, Amanda, voltou para perto dela e a abraçou
— Eu te amo Manda, esse vai ser o nosso ano, você vai ver, vamos ser felizes para sempre a partir de agora! — Rafaela disse — Eu desejo que você fique para sempre comigo!
— Eu também te amo meu anjo da guarda — Amanda apertou Rafaela com força — Nossas almas são abençoadas por Deus e eu proclamo que deste ano em diante estamos unidas para sempre!
Rafaela afastou o rosto e olhou para ela com estranheza, mas sorriu, as palavras soaram estranhas para o cotidiano e a situação, impactantes, mas não ligou e partiu para o beijo, estava apaixonada e grata por casa segundo e por aquele ano novo que começava com o pé direito.
O Beijo foi forte, gostoso, daqueles que as línguas se entrelaçam com intimidade e com volúpia, como se violassem de forma abusiva uma a outra, mas era sexy, apaixonado, quente ambas ficaram completamente molhadas depois daquele beijo que durou longos dois minutos, as pessoas em volta viram como elas estavam apaixonadas, algumas com repulsa e recusa por serem mulheres, mas ninguém agiu com agressividade aparente, apenas comentaram.
— Quero que a gente faça o melhor amor de todos — Rafaela disse — Pra começar o ano
— Tá bom! — Amanda disse, mas acho melhor a gente não estar tão bêbada nem sumir agora né
— Verdade — Rafaela disse olhando para o relógio delicado em seu pulso — Vamos dar um tempinho, daqui a uma hora a gente vai pro quarto e eu vou chupar você até o sol raiar, vai ser nosso novo ritual de virada de ano
Amanda sorriu envergonhada e deu um tapa no braço de Rafaela, riram e Amanda concluiu:
— Daqui a uma hora, combinado!
Ficaram olhando os fogos, os olhos de Amanda brilhavam, era tudo o que ela queria, Rafaela também amou, assim como Natali havia dito elas sentiram o calor, os fogos duraram quase dez minutos.
— Foi incrível — Amanda disse animada — Nossa, amei isso!
— Eu disse que você ia adorar! — Rafaela falou animada
— To um pouco cansada, esse pula pula nosso me deixou tonta — Amanda disse para Rafaela
Guilherme tirou a taça de champagne da mão dela
— Então chega — Guilherme disse — Senta aqui um pouco
Puxou a namorada para uma cadeira de palha, havia um homem sentado e Guilherme falou algo no ouvido dele, ele concordou e saiu de forma solícita, Amanda agradeceu e se sentou
Rafaela sentiu algo vibrar no bolso do shortinho que usava por baixo da saia, era seu celular
— Meu celular — Rafaela falou pegando o aparelho, era seu padrinho
— É o Diu, ele vai me dar feliz ano novo! — Rafaela falou animada apontando para o telefone enquanto segurava uma das mãos de Amanda, Guilherme segurava a outra mão da namorada.
Amanda dançava ouvindo a musica sentada mesmo com mal estar, estava animada, contente por ver a virada daquele ano, era um desejo dela ter mais tempo e ver os fogos lindos na praia.
— Feliz ano novo Diiiiuuuuuuuuuuu — Rafaela falou ao atender, mas não houve empolgação do outro lado
— Rafaela — A voz era feminina, da sua tia, parecia séria, desanimada
— Oi tia, Feliz ano novo, cadê o Diu? — Rafaela perguntou
— Rafaela, cadê minha irmã? — A voz era seca
— Tia, o que foi? Cadê o Diu? — Rafaela perguntou preocupada, olhou para Amanda e ela estava sorrindo olhando para frente, vendo o resquício dos fogos
— Ele foi preso Rafaela, preciso falar com a Rose agora, passa para ela por favor
Rafaela levantou o celular mostrando para a mãe
— Mãaããeeee! — Rafaela gritou
Rose veio correndo
— O que foi — Perguntou vendo a cara de Rafaela
— O Diu, ele ta preso, atende aqui, fala com a tia, pelo amor de Deus! — Rafaela estava desesperada
— O que foi amor? — Amanda perguntou puxando a mão de Rafaela
Rafaela se abaixou, os olhos vermelhos, o coração acelerado
— Eu não sei, acho que o Diu tá preso, eu não sei o que aconteceu
— Preso? — Amanda perguntou, meu Deus
Amanda olhou pra Rafaela, algo havia mudado, Amanda sentiu algo incomum.
— Amor! — Amanda disse, parecia imóvel
— Eu — Rafaela respondeu sentindo seu ouvido pulsar pelo aumento de sua pressão, pelo nervoso.
— Me dá um beijo? — Amanda parecia sentir dor, não mexia o corpo, só a cabeça.
Rafaela se aproximou e beijou os lábios dela, viu que ela estava dura.
— Tá doendo? — Rafaela perguntou ao estalar os lábios com os dela
Amanda fechou os olhos e fez uma cara de dor, intensa, com os dentes trincados seu pescoço se esticou, parecia fazer força, Rafaela observou assustada pelo segundo intenso que aquilo durou, colocou a mão na barriga da namorada e pegou a mão dela dando um beijo tão forte que fechou os olhos.
Quando abriu olhou para Amanda, ela olhava para Rafaela séria, sem expressão e com a boca semi aberta.
A mão que segurava a mão de Rafaela perdeu a sustentação, ficou pesada e Rafaela não conseguiu segurar, era como se fosse oleosa, bateu na cadeira de palha com força, ela viu quando Guilherme soltou a mão de Amanda também e se assustou
— Manda!? — Ele se abaixou no momento que a cabeça dela pendeu devagar para trás de olhos abertos, ele a segurou
— Manda!? — Rafaela gritou aterrorizada
Rafaela colocou a mão no peito dela
— Meu deus! — falou chamando a atenção das pessoas em volta
Carlinhos apareceu como que por teletransporte, e empurrou Rafaela, colocou a mão no pescoço de Amanda e no pulso, o ouvido no pescoço, tirou um espelho do chaveiro e colocou no nariz dela.
— Nataliiiiiiii— Gritou para a filha
Mas Natalia já corria com uma maleta branca
— Me ajuda aqui — Carlinhos falou para Guilherme, ambos tiraram Amanda da cadeira e a colocaram no chão de forma delicada
Natali chegou e se ajoelhou do lado abrindo a mala e checando a pulsação de Amanda
— Não tem pulso! — Falou para o pai enquanto começava a massagem cardíaca
— Não para! — Carlinhos falou pegando medicamentos — Alguém liga pra emergência agora!
Rafaela não respirava, olhava Carlinhos e Natali fazendo massagem cardíaca em Amanda
Guilherme abaixado ao lado deles com as mãos na cabeça com cara de desesperado, as pessoas olhando, ela em pé sem saber o que fazer, vendo Amanda naquele estado, não conseguia sequer piscar, ouvia o assobio dos fogos remanescentes, aquilo parecia acontecer em câmera lenta, os fogos, as pessoas, as luzes, tudo estava devagar, tudo desaparecendo.
— O Amor da minha vida sem vida? — Falou baixinho
— Morreu?
Rafaela ouviu a voz da mãe ao telefone e se virou para ela para ouvir com o ouvido bom.
— Está no hospital? — Rose falou assustada — Seis facadas? Risco de vida?
Ela se referia ao padrinho de Rafaela
Rafaela colocou as mãos na cabeça em desespero e começou a respirar rápido
— Meu Deus!, Meu Deus! — Estava desesperada, andava para trás, encostou as costas na parede — Tá tudo dando errado, não, tá ruindo, tudo de novo, não era pra ser assim, não era pra ser assim! — Falou agarrando os próprios cabelos de pano em desespero.
— Filha calma! — O pai de Rafaela se aproximou — Amor, calma!
Segurou o rosto de Rafaela, o ouvido dela pulsava tão forte que o pai sentiu a pulsação, Rafaela sentiu um apito fino, ela ficou completamente surda.
Via o pai falando, ele mexia os lábios mas ela não conseguia ouvir, parecia que estava embaixo d’água, havia muito barulho, mas nada fazia sentido, ela viu quando Carlinhos segurou Natali, ela estava montada em cima de Amanda pressionando com violência enquanto sua maquiagem escorria preta por seus olhos de cores diferentes, ela gritava relutando por desistir.
Carlinhos fazia um sinal negativo e ela se recusava a parar, até que ela a arrancou de cima de Amanda que ainda não se movia
Natali olhou para Rafaela e ela entendeu tudo, um segundo de olhar e bilhões de informações ao mesmo tempo, Carlinhos abraçou a filha, Natali se encolheu aos berros no colo do pai.
Aquilo era demais, muita coisa, era pesado, lembrou do avô, da escola, das tardes quentes de verão, das férias de fim de ano, de Amanda, de Guilherme, do padrinho, do irmão.
As perfeitas juras de amor que havia feito com Amanda minutos antes, ela não podia morrer, ela disse que estavam conectadas, ela não costumava mentir para Rafaela.
Tomou todo o ar que tinha, que podia, sentiu seu peito doer de tão cheio e berrou com toda força que tinha
— Mentirosa! Nãããããooooo!
Não conseguia ouvir a própria voz
Abaixou-se e colocou a mão na cabeça
— Não!, não!, não! — Repetia para si mesmo, sentia as pessoas se aproximando e tocando nela
Ouvia elas dizendo, mas as palavras não faziam qualquer sentido
Abraçou pernas
— Não, não, não pode ser, não pode ser — Repetia para si mesma
Se encolheu como pôde, sua garganta arranhando pelo grito, começou a se balançar instintivamente, ouviu algo de vidro trincando e se quebrando, era como se algo estivesse estilhaçado, algo que estava prestes a ruir havia finalmente quebrado dentro da cabeça de Rafaela e a realidade deixou de existir.


