Diário de Rafaela 2 — Capítulo 50 — Natal

Diário de Rafaela 2 — Capítulo 50 — Natal

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🕝🕝🕝Quatorze anos atrás🕝🕝🕝

— Dona Rose, certo? — A professora esticou a mão para ela em seguida para o senhor ao lado dela — E o senhor é?

— Sou o Rafael, o avô da Rafaela — Ele respondeu apertando a mão da professora

— Sim, eu mesma — Rose respondeu solícita

— A senhora é a mãe da Rafaela né? — Perguntou dirigindo-se à Rose

— Sim, sou sim, a senhora me chamou aqui — Rose perguntou confirmando

— Meu nome é Edite, sou a professora dela, responsável pela parte pedagógica aqui da escola — Edite se apresentou

— Sim, eu sei — Rose respondeu assertiva — A Rafaela aprontou alguma coisa? Ela é sempre tão quieta.

— Não, ela não aprontou nada específico, mas precisamos falar do desempenho dela. — Edite pegou alguns papéis e pediu para Rose e Rafael se sentarem na cadeira a frente — O Desempenho escolar da Rafaela é bem abaixo do esperado, ela tem claras dificuldades em aprendizado, não consegue acompanhar a turma e recentemente fizemos alguns testes nos alunos e os resultados dela não foram satisfatórios

— Vocês sabem que ela pode estar ficando surda certo? — Rafael falou explicativo — Ela é uma menina esperta, mas ela pode não estar ouvindo direito

Edite olhou com surpresa, Rose continuou olhando o papel, virou-o para Edite e bateu com o dedo onde estava escrito “Possivel problema auditivo genético, atenção requerida, observar evolução”

— Bem, eu — Edite pareceu desconcertada — O teste não leva isso em consideração e francamente não creio que seja relevante, o fato é que as notas dela estão bem abaixo da média.

Mostrou novamente os papéis para Rose, haviam notas de avaliação, números, letras, Rose não entendeu

— A senhora pode resumir, me falar o que concluem, eu não entendo isso

— Ela está dizendo que a Rafaela é burra Rose — Rafael falou com a voz tranquila

Edite respirou fundo e endireitou o corpo na cadeira

— Não é isso, Rafaela tem alguns problemas cognitivos que vão impedir ela de evoluir na parte pedagógica e na parte de comunicação interpessoal

Rose não respondeu, estava atenta em choque, Edite continuou

— Rafaela é o que chamavam antigamente de “Criança Retardada” — Fez aspas com as mãos — É claro que hoje não usamos mais esse termo, mas há uma clara recomendação da diretoria — Edite mostrou outros papéis

Rafael se levantou

— Que idiotice! — Rafael mesmo calmo parecia contrariado — Estão julgando um peixe porque ele não sabe andar de bicicleta, pra mim já chega dessa bobagem, vou esperar lá fora, com sua licença — Levantou-se tirando o cigarro do bolso e saiu.

Rose olhou para seu pai saindo da sala, depois para os papéis, mas nada mais fazia sentido, Edite ficou abalada com a saída dramática de Rafael, mas prosseguiu

— A nossa recomendação é que a Rafaela seja transferida para a sala especial, para que consiga acompanhar o ritmo das outras crianças com as mesmas limitações dela.

Rose olhou para a professora

— Minha filha não é retardada, é o contrário, ela é mais esperta que o comum — Rose defendeu Rafaela

— Mãe — Edite usou o termo que era usado para falar com os pais dos alunos — Eu sei que não é fácil de aceitar, mas os testes não mentem, constatamos isso, você pode levá-la a alguns profissionais para diagnosticar isso, mas no momento a transferência dela para essa sala especial é obrigatória

— Especial? — Rose perguntou indignada — Você vai colocar minha filha num curral isolado com outras crianças? É aquela sala onde as pessoas olham e sentem pena?

— É melhor para ela — Edite reforçou

Rose se levantou

— Isso é ridículo! — Pegou os papéis — Veremos se é isso mesmo, passar bem.

Saiu da sala de forma abrupta, sem se despedir, saiu pelo corredor pisando leve, parecia em outro mundo, seu primeiro filhos Fábio era tão esperto, notas boas, desenvolvimento acima da média e a segunda filha era problemática, por que aquilo estava acontecendo, já não bastava os problemas que ela poderia ter e ainda teria retardo mental?

— Pai — Rose falou se aproximando de Rafael.

Ele soltou o ar branco do cigarro

— Ela é esperta Rose, eu sei que é, ela aprende fácil, falo muito com ela sabe — Rafael falou como se estivesse se justificando, os olhos brilhando com lágrimas prestes a brotar

— Eu sei, pai, mas a gente tem que fazer alguma coisa — Rose falou pensativa

— Vamos fazer — Rafael deu outra baforada no cigarro — vamos fazer sim

🕝🕝🕝Dias Atuais🕝🕝🕝

Amanda só acordou no dia seguinte, era manhã do dia 24 de Dezembro, Rafaela dormiu tarde, mas a cada meia hora vinha observar Amanda.

As seis horas da manhã ela abriu os olhos, Rafaela estava deitada de lado a observando a namorada, queria memorizar as feições tranquilas dela, livre de dor, havia dormido tarde e estava exausta, mas atenta

— Bom dia princesa do sonhar! — Rafaela sorriu ao ver os olhos abertos de Amanda — Dormiu bem?

Amanda olhou para Rafaela e tocou seu rosto

— Sonhei com você! — Amanda disse

— Sério? E o que sonhou? — Rafaela perguntou curiosa

Amanda engoliu seco

Alguém bateu à porta

— Rafa, Manda — Era Natali — Acordem, preciso falar com vocês

— Tá aberta — Rafaela gritou

Natali entrou e fechou a porta

— Olha, tenho uma notícia que pode ser boa ou ruim — Olhou para Amanda — Olha, acordou a bela adormecida

Amanda sorriu descabelada

— É uma notícia boa e outra ruim? — Rafaela perguntou confusa

— Não — Natali sentou na beira da cama obrigado Rafaela a afastar e dar espaço — É uma notícia, mas dado os fatos eu não sei se vai ser bom ou ruim, ou melhor, pra você — Apontou pra Amanda — Acho que vai ser bom, mas pra você — Apontou para Rafaela — Ah você vai ficar putaça! — Sorriu de maneira maldosa

Rafaela franziu o cenho

— Putaça por que? — Parecia irritada — Como assim? Putaça com o que? Que porra aconteceu?

— Aí, nem falei e você já tá pistola

— Fala logo caralho! — Rafaela falou irritada erguendo o corpo e arrumando o cabelo e empurrando Natali com brutalidade — Para de fazer drama porra!

— Iiiiihhhh acordou azeda foi? — Natali disse revirando os olhos

— Fala Nati, fala logo! — Rafaela disse irritada

— Falo não, vocês que desçam e se preparem, vou pegar um café pra mim, beijos — Natali mandou beijos com as mãos e saiu rindo.

— O que será? — Amanda perguntou já se levantando

— Você tá bem pra se levantar? — Rafaela segurou o braço dela

— Eu não sou de vidro amor, to bem sim — Amanda se levantou

— Não sei, não faço ideia, vou descer lá pra ver — Rafaela falou levantando-se rápido e dando uma olhada no espelho.

— Me espera — Amanda disse indo ao banheiro

— Não, toma seu banho aí rapidinho que eu já volto pra te falar o que é — Rafaela tinha algumas ideias, mas nada que impactasse Amanda e ela ao mesmo tempo

Desceu as escadas e viu uma pequena aglomeração, viu seu pai e mãe conversando, viu sua tia e seu padrinho, sentiu alívio ao ver seu padrinho, sentia saudades, viu dois rapazes que ela já conhecia, eram amigos do seu namorado e ao lado deles ela viu, era Guilherme.

Parou no pé da escada, não sabia o que fazer, nem o que falar, tremeu de nervoso, não queria fazer nenhum tipo de escândalo ou brigar

Guilherme a viu e acenou

— Oi Rafa! — Ele se aproximou — Vim fazer uma surpresa para vocês

Rafaela sentiu seus dentes baterem de nervoso, olhou para ele de baixo em cima, era lindo, forte, malhado, cabelo ondulado bem penteado.

Não respondeu

— Rafa? — ele falou se aproximando e dando um beijo nos lábios dela

Rafaela recebeu o beijo e um segundo depois se afastou, todos que estavam com ele olhavam para ela, Rafaela viu Natali com um copo de café, encostada no batente da porta observando.

Girou nos calcanhares e deu as costas subindo a escada e voltando ao quarto.

Entrou no banheiro e Amanda já tomava banho

— Amor, é você? — Amanda perguntou ao ouvir o barulho da porta

— Sou eu — Rafaela abaixou a tampa do vaso e sentou-se pensativa

— E aí, descobriu quem era? — Amanda perguntou do box

— É o Guilherme — Rafaela respondeu quase sem voz

— Quem? — Amanda perguntou colocando a cabeça para fora do box

— Seu namorado — Rafaela falou olhando para ela

— Nosso namorado — Amanda corrigiu

— É — Rafaela respondeu carrancuda

— Anda, tira essa roupa, vem tomar um banho

— Não quero — Rafaela cruzou os braços

— Não quer o que? — Amanda perguntou ainda com a cabeça para fora do box

— Não quero tomar banho agora, toma aí — Respondeu com a expressão severa

Amanda entrou no box e segundos depois Rafaela sentiu água quente sendo jogada na sua cabeça

Deu um gritinho fino

— Prostituta! — Rafaela ofendeu Amanda — Porra Manda, to toda molhada agora

— Vem porquinha, vem tomar banho, água não derrete não — Amanda falou num tom bem humorado

Rafaela se olhou no espelho, a camiseta molhada, tirou a roupa toda e jogou no canto, entrou nua no box

— Caralho Manda, eu não queria tomar banho agora! — Reclamou

Assim que entrou no box Amanda a abraçou pela cintura pousando a cabeça no pescoço de Rafaela.

Rafaela ainda estava carrancuda, esperou Amanda largá-la, mas não aconteceu, demorou mais que o normal, ela entendeu que havia algo errado.

— O que foi? — Rafaela abraçou Amanda também

— Eu quero que você fique bem — Amanda falou com a voz chorosa

Rafaela a empurrou e levantou o rosto dela

— Eu fique bem? — Rafaela franziu o cenho — O que você sonhou? Você ia falar e a falsa eu interrompeu

— Nada não — Amanda desconversou

— Ah, agora você que não está sendo honesta comigo, mas eu tenho que ser com você? — Rafaela falou já emburrada — Muito justo isso né?

Amanda respirou fundo e fechou os olhos

— Amor, olha, eu quero que você me prometa uma coisa — Amanda falou com tristeza na voz

— Não vou prometer nada, pode esquecer — Rafaela respondeu se ensaboando — É alguma merda trágica né?

— Eu preciso ficar tranquila sobre isso — Amanda disse — Eu não quero que você sofra

— Sofrer com o que cacete? Que porra você tá falando? — Rafaela ativou o modo agressivo, estava na defensiva, sabia exatamente o que Amanda queria dizer

— Amor, não fica brava comigo — Amanda disse amorosa — Mas eu não quero que você fique mal quando eu for embora

— Vai embora com o seu namorado é isso? Ele veio te buscar? — Rafaela desconversou, estava irritada

— Não podemos evitar essa conversa mais, sinto que ta proximo

— Tá próximo o que? O que você está sentindo? — Rafaela disse já em tom desesperado, colocou a mão na barriga de Amanda — Você falou que tava bem agora de manhã, tá doendo? — As lágrimas de Rafaela brotaram instantâneamente

Amanda segurou a mão de Rafaela

— Amor, amor — Falou até Rafaela olhar ela nos olhos — Presta atenção — Estava serena e tranquila — Eu quero que você prossiga

— Prosseguir o que Amanda? — Rafaela perguntou já com os olhos marejados — Para com isso cacete!

— Quando eu for embora, e você sabe que eu vou — Amanda disse sensata — Eu quero que você respire e siga sua vida da melhor maneira possível sem mim

— Sem você não, só vou sem você se você não me quiser mais — Rafaela falou tentando desviar do assunto

Amanda pegou as duas mãos dela e sorriu, beijou as mãos de Rafaela e passou no próprio rosto.

— Só Deus sabe que você é um anjo na minha vida, todos os anos que tivemos juntas foi só um preparativo para esses últimos meses, que foram os mais felizes e mágicos que eu já passei.

Rafaela sentiu seu corpo tremer, ainda estava nervosa, seus dentes bateram de nervoso e ansiedade, Amanda sentiu a tremedeira e puxou ela para baixo da água quente.

— Presta atenção — Amanda disse abraçando Rafaela por trás — Eu sonhei que eu havia ido embora e que você ficava muito, muito mal, mas que você conseguia ir em frente.

Rafaela colocou as duas mãos no rosto e começou a chorar em desespero, Amanda beijou o pescoço dela

— Vai ser ruim sim, bastante ruim, vai ser vazio — deslizou a mão pela barriga ensaboada de Rafaela e espalmou embaixo do seio esquerdo — Mas eu vou estar aqui para sempre — Em seguida beijou a cabeça de Rafaela — E aqui.

Rafaela não respondia, só chorava copiosamente e Amanda continuou

— Você tem que lembrar que você é o amor da minha vida e vai ser para sempre

— E você o meu — Rafaela respondeu chorosa

— E que eu quero que você prossiga, lembre-se sempre de mim, mas eu quero que você siga a minha lista, faça as coisas pra mim, case-se, tenha filhos, escreva seus livros, mas me faz com cabelo, vá para outro país, conheça pessoas incríveis, corra riscos calculados

Rafaela virou-se de frente para Amanda e encolheu os braços junto ao corpo, Amanda a abraçou

— Promete pra Manda que você vai seguir em frente? Por mim, pelo nosso amor? — Amanda falou abraçando Rafaela com força

Rafaela não respondeu, tremia de nervoso, estava irritada por não conseguir parar de tremer.

— Promete pra mim amor? — Amanda reforçou a pergunta

— Eu prometo, mas sem você não vai ser fácil, eu não consigo me ver sem você — Rafaela disse abordando o assunto diretamente pela primeira vez

— Você tem a Nati, ela vai te ajudar — Amanda disse carinhosa

— Não, eu não tenho a ligação com ela que tenho com você, você é minha princesa encantada, você me faz acordar todos os dias, eu sinto vontade de tudo com você, se eu tomo um café eu penso que você iria gostar dele, se eu vejo algo bonito na rua eu penso que você podia ter visto comigo, se me contam uma piada engraçada a primeira coisa que eu penso é que você iria adorar.

— Eu sei que você não acredita muito nessas coisas, que você é cética — Amanda falou acariciando o rosto de Rafaela — Mas nós somos almas gêmeas

Rafaela fez que sim com a cabeça

— Eu sei que somos — Falou concordando — No período que eu fiquei sem você, eu me forcei a ter raiva de você, criei uma história na minha cabeça onde você era a vilã, maldosa e usurpadora, mas eu sempre soube que não era verdade, por que eu sempre te amei.

— Eu nunca tive dúvidas, e isso me faz melhor que você — Amanda falou arrancando risos imediatos de Rafaela

Em seguida Rafaela a abraçou chorando copiosamente, ficaram agarradas embaixo do chuveiro por um bom tempo.

— Você sabe quando vai ser? — Rafaela perguntou ainda abraçada

— Não, mas eu acho que está próximo, eu queria ver os fogos de ano novo, deve ser tão bonito aqui na praia

— É lindo, você vai adorar! — Rafaela disse esperançosa

Saíram do banheiro se enxugando, não falavam sobre nada, apenas procuraram roupas e se secaram em silêncio, Rafaela se vestiu primeiro, esperou Amanda colocar o shortinho e o Top

— Está linda! — Rafaela disse quando ela terminou, pegou na mão dela e abriu a porta saindo corredor afora de mãos dadas.

Desceram as escadas e havia muitas pessoas tomando café e conversando.

Amanda viu Guilherme e sorriu

— Gui! — Falou alegre indo na direção dele

Deu um beijo breve na boca e ele a abraçou levantando-a e tirando seus pés do chão

— Deu certo a academia? — Amanda perguntou animada

— Está dando certo sim, tudo vai ficar legal, vou ficar com vocês um pouco aqui, o que acha? — Ele perguntou animado

— Eu acho o máximo! — Ela disse animada esticando a mão e pegando Rafaela que estava carrancuda do lado deles, puxou-a no abraço triplo — Amo vocês — Amanda falou beijando a boca de Guilherme e depois de Rafaela.

Guilherme abraçou Rafaela e ela amoleceu um pouco, aceitou o abraço dele e foram comer.

🕝🕝🕝Doze anos atrás🕝🕝🕝

— Mas mãe eu tô cansada! — Rafaela se queixou, sentia muito sono e dor de cabeça

— Não, você vai terminar a sua lição de casa antes de dormir — Rose respondeu autoritária

— Mas mãe, ninguém na escola faz igual eu, eu quero sair pra brincar — Rafaela falou com cara de choro

— Não, você já terminou as lições de matemática?

— Já!

— De inglês?

— Já!

— As extra de matemática

— Já mãe, é ruim!

— Você refez o teste de português?

— Refiz mãe, refiz

— Suas notas não estão boas Rafa, você precisa se esforçar mais! — Rose disse autoritária

— Mãe eu tirei 9 em Português por que eu tava com dor de cabeça, mas as outras foram todas com 10, eu sou a melhor aluna da escola

— Pois você não faz mais que a sua obrigação

— Mas eu estudo o dia inteiro mãe, é Kumon, é professor particular, é aula, é curso eu não aguento mais — Rafaela reclamou chorando

Rose respirou fundo e se aproximou da filha

— Meu amor — sentou-se no sofá ao lado de Rafaela — Não me entenda mal, eu não estou te obrigando a fazer isso para o seu mau, é o contrário, você precisa se esforçar assim, precisa ir além.

Rafaela se calou

— As crianças pararam de mexer com você? — Rose perguntou

— Não, me chamaram de retardada de novo — Respondeu de cabeça baixa

— Vamos mudar de escola de novo então — Rose disse passando a mão na cabeça de Rafaela

— Não, não! — Rafaela levantou o rosto — Eu tenho uma amiga, ela mora aqui perto

— Amiga é? Quem é? — Rose perguntou satisfeita

— O nome dela é Amanda, ela é loira, é linda e todo mundo gosta dela, eu queria ser ela! — Rafaela disse com os olhos brilhando

— Tá bom meu amor, então termina a leitura — Rose deu um livro para Rafaela — Fecha esse capítulo e você pode fazer o que quer, mas depois é banho e cama tá?

— Tá bom! — Rafaela respondeu animada e pegou o livro gigantesco escrito “O Senhor dos Anéis” na capa que seu avô havia lhe dado

Rafaela era muito apegada ao avô, os pouco momentos que ele aparecia sempre dava doces à menina e a pegava no colo como se fosse uma boneca, ele sempre a fazia rir até chorar quando tentava pegar no pescoço dela fazendo cócegas.

— Você me leva na casa do vovô? — Rafaela disse animada

Rose só sorriu

O que a mãe não sabia é que na casa do avô Rafaela tinha atividades secretas, em segredo eles liam revistas em quadrinhos que o avô tanto adorava, uma revista que ele amava Rafaela acabou lendo escondido por que ele disse que era “Adulta demais” o nome era Watchmen.

Ela leu tudo duas vezes, gostou da aventura, mas não entendeu boa parte do que acontecia, achava estranho o homem azul pelado que falava umas coisas esquisitas, mas a cabeça de Rafaela era melhor do que pensavam, ela tinha uma ótima memória.

🕝🕝🕝Dias Atuais🕝🕝🕝

Amanda sentou-se no meio de Rafaela e Guilherme e começaram a tomar café da manhã, as pessoas pareciam não prestar mais atenção neles

— Você vai ficar carrancuda comigo Rafa? — Guilherme perguntou quando percebeu que ninguém mais os notava

— Meu, na boa, fala comigo não vai — Rafaela respondeu sem olhar para ele enquanto passava manteiga em um pedaço de pão — Não to boa hoje

— Eu voltei para vocês — Guilherme falou animado — Isso não tem valor?

Rafaela respirou fundo, olhou para Amanda que olhava atenta, deu o pedaço de pão para ela

— Come! — Fez Amanda levar o pedaço de pão à boca e olhou para Guilherme — Tá bom, eu tô disposta a esquecer isso temporariamente, depende do seu plano mirabolante de futuro, quero saber se ele inclui a gente ou só você e seu comedor mesmo?

Guilherme revirou os olhos

— Eu nunca disse que ia abandonar vocês, mas eu preciso correr atrás do meu, evoluir, ganhar meu dinheiro e ter as minhas coisas para no futuro sustentar duas esposas com filhos

Rafaela e Amanda ergueram as sobrancelhas ao mesmo tempo, olharam uma para outra e sorriram, Rafaela conteve o sorriso, mas Amanda continuou

— Você pensa nessas coisas? Casar com a gente? — Amanda perguntou mastigando devagar

— Claro, eu quero casar com vocês, ter filhos com vocês e para isso preciso trabalhar bastante para dar um lugar bom para vocês — Ele parou um pouco e pensou — E se vocês engravidarem ao mesmo tempo? Fudeu!

Rafaela abaixou a cabeça, estava contente, mas não queria demonstrar, não conseguia esconder o sorriso nos lábios, arrumou o cabelo involuntariamente, passou creme de avelã num biscoito do jeito que Guilherme gostava e ela sabia, fez como um sinal de trégua e deu pra ele.

— Tó — Esticou a mão e deu na boca dele, Guilherme mordeu.

Continuaram o café da manhã de forma branda, ele falando como estava a academia, e elas falando do lugar, Rafaela não perguntou para ninguém, simplesmente decidiu que Guilherme ficaria no quarto com elas, arrumou as coisas lá, a cama era de casal, grande, mas com três ficaria apertada.

Rafaela entrou no banheiro e saiu com um biquíni minúsculo, branco

— Caramba, que pequeno — Guilherme falou ao ver, pegou-a pela mão e fez ela dar uma volta, o bumbum dela engolia grande parte do biquíni — Não tem um maior não

— Tem sim, mas vou ficar com esse, bom que os meninos pagam pau pra mim e você fica esperto — Ainda estava irritada com o abandono — Mas eu não vou ficar com ninguém enquanto você estiver aqui, fica tranquilo

— E quando eu não estiver? — Guilherme perguntou

— Se você ameaçar me abandonar eu te abandono — Rafaela disse agressiva

— Eu não ameacei — Guilherme se defendeu

— A gente vai ver isso aos poucos, Gui, mas pode ficar tranquilo por enquanto

Rafaela desceu e deixou os dois no quarto conversando, procurou Natali e não encontrou, sentou-se à beira da Piscina com os pés na água, os meninos do dia anterior passaram por ela e a cumprimentaram, ela piscava delicadamente e sorria para eles, ficou pensando que aquela situação era insustentável.

Começou a pensar nas coisas que aconteciam, em Amanda, em Guilherme, na Irmã e começou a balançar seu corpo levemente para frente e para trás, fazia tempo que não fazia aquilo, era como um pêndulo, era uma sensação relaxante, sentia-se bem com aquilo, sentia-se como um pistão de motor num movimento rítmico e sistemático

— Rafa, Rafaela! — Ouviu sua mãe chamar

🕝🕝🕝Oito anos atrás🕝🕝🕝

— Rafa, Rafaela! — Ouviu sua mãe chamar e se assustou

— Oi Mãe! — Rafaela respondeu com os pés dentro da piscina

— Por que você tá balançando assim? Que coisa mais feia filha! — Rose a repreendeu

— Eu, eu — Rafaela não pensava naquilo, era só uma forma que ela usava para pensar com clareza — Desculpa! — Desviou o olhar entristecida

Parou o movimento e se levantou, usava uma bermuda Jeans e a parte de cima de um biquíni.

Matheus apareceu no portão da casa, Rafaela o viu de longe

— Diiiiuuuuuu — Gritou e correu para ele o abraçando, ele a ergueu com facilidade pois era muito magra.

Ele agarrou a garota e apertou com força, ele não parecia feliz, isso era estranho ele era um homem sorridente, feliz, contente e sempre passava uma vibe positiva, a figura dele era apaixonante para Rafaela, ele a segurou por alguns minutos, ela gostou do abraço.

No geral Rafaela não gostava do contato físico, sentia-se incomodada, apenas três pessoas tinham essa permissão que eram seu irmão, seu pai e seu padrinho, que ela chamava carinhosamente de Diu.

— Você tá bem estrelinha? — Ele perguntou beijando a cabeça dela que era coberta pelo volumoso cabelo cacheado castanho escuro

— Eu tava com saudade, você não fala mais comigo! — Rafaela falou se afastando

— Claro que eu falo meu amor, mas eu to com problema, eu prometo que vou ficar mais próximo de você a partir de agora tá bom? — Falou com um sorriso parecendo entristecido

— Tá bom — Rafaela analisou o rosto dele, entendeu que algo estava errado — O que houve? O Vôzinho está bem?

O avô de Rafaela estava no hospital, era muito idoso, era fumante e estava muito mal de saúde, a família sabia do apego de Rafaela com ele, todos tinham muito cuidado com ela, com os sentimentos dela, ninguém saberia como ela iria reagir à fortes impactos.

Rafaela fazia terapia psiquiátrica e tomava alguns remédios para aprimorar seu avanço cerebral, seus pais tinham uma enorme preocupação com isso pois não queriam que ela ficasse para trás em nada.

Mesmo assim, de certa forma eles achavam Rafaela uma criança frágil, tanto física como psicologicamente e isso gerava cuidados especiais.

Matheus se sentou na cadeira ao lado da piscina

— Matheus, cadê minha irmã? — Rose perguntou se aproximando

Matheus olhou para ela, a respiração pesada

— Está lá — Respondeu evasivo

— E está tudo bem lá? — Rose perguntou se referindo ao hospital, ao próprio pai internado que ela havia ido visitar pela manhã

Matheus olhou para ela e depois para Rafaela, olhou para os outros membros da família, não tinha boas notícias.

Os olhos de Rose encheram de lágrimas

— Ele foi? — Perguntou com a voz embargada

Matheus fez que sim com a cabeça

— Foi tranquilo — Respondeu simplório — Vim avisar.

Rose respirou trêmula e foi abraçada por seu marido.

Fabio, o irmão de Rafaela também ficou com os olhos cheios de lágrimas e se aproximou de Rafaela, ela tinha um sorriso nos lábios, parecia olhar para o vazio.

— Tudo bem gatinha? — Fabio abraçou a irmã sacudindo ela com uma violência controlada como sempre fazia, era um carinho entre eles

Ela olhou para ele confusa

— Ele foi pra onde? — Perguntou sem entender o que a mãe e o tio falavam

Fabio desviou o olhar, era uma criança ainda, mas era muito inteligente, para Rafaela ele era a pessoa mais inteligente do mundo todo, mas era novo, um adolescente, amava a irmã com todas as forças.

— Ele foi embora querida — As lágrimas caiam dos olhos dele

— Por que? — Rafaela perguntou sem entender

— Por que chegou a hora dele — Fábio disse carinhoso

Os familiares olhavam atentos

— Mas ele não se despediu, ele volta quando? — Rafaela perguntou confusa

— Querida — Marcel, o pai de Rafaela se abaixou ficando da altura de Rafaela — Ele não volta mais, isso acontece quando chega a nossa hora

— Por que não volta mais? ele não falou tchau pra mim! — Rafaela falou indignada — Ele não gosta mais de mim? Por que não me avisou, eu to com a revistinha dele, ele tem que levar pra ler!

Rose colocou as duas mãos no rosto e saiu dali aos prantos

O padrinho se abaixou na frente dela

— Estrelinha, presta atenção tá — Matheus falou carinhoso —  O Vovô faleceu, ele não vai mais voltar, ele não se despediu por que ele não conseguiu, não deu tempo, mas ele faria se pudesse

Ela pensou um pouco, sabia o que era, era morte, nunca havia se deparado com isso, nunca pensou que isso pudesse acontecer de verdade, pensou que era coisas dos livros.

Apesar de todos a julgarem devagar ela entendia as coisas, gostava de saber do mecanismo de tudo, gostava de compreender o básico

Para quem olhava, Rafaela estava estática olhando para o infinito em choque. Mas na cabeça da garota haviam quilômetros de prateleiras de livros onde ele procurava algo, algo que já havia lido, algo que explicaria aquilo, como reverter aquilo, seria possível trazer o avô de volta.

Uma das prateleiras parou de se mexer, era uma revistinha em quadrinhos com um rostinho redondo com um sorriso amarelo na capa, um smile.

Rafaela abriu a revista, viu o homem azul falando alguma coisa, leu as palavras dele em voz alta

— Vida e morte são abstratos não quantificáveis! — Falou enquanto todos olhavam para ela, era a frase do personagem “Dr, Manhattan”

Rafaela percebeu que o padrinho olhava curioso.

— O que? — Ele perguntou sem entender o que ela havia dito

— Ele morreu né? — Rafaela perguntou

— Sim — Matheus respondeu direto

— Ele não vai voltar né? — Rafaela perguntou pedindo confirmação

— Não, não vai — Matheus respondeu também direto, sem rodeios

Rafaela sentiu uma dor de cabeça, parecia que sua coluna havia dado um choque que esquentava sua nuca

— Ah não! — Ela falou segurando a cabeça com as duas mãos e se sentando, enfiando a cabeça no meio das pernas — Não… — Murchou como se fosse uma flor

Rafaela se encolheu e permaneceu na mesma posição por mais de quarenta e oito horas, imóvel, inerte, sem comunicação com o mundo exterior, fechada em sua mente, absorta em pensamentos, conversava com o avô e reliam suas histórias prediletas na sua cabeça.

🕝🕝🕝Dias atuais🕝🕝🕝

— Rafaela! — Rose disse num tom mais alto chamando a atenção de Rafaela na beira da piscina de uma vez

Ela parou de se balançar e se virou

— Oi mãe — Falou piscando os dois olhos de uma maneira quase programada

Rose se aproximou, sua expressão mudou para mais severa

— Por que você tá se balançando? — Perguntou enraivecida — Isso é muito feio!

Rafaela sacudiu a cabeça, era confortável, era bom, mas sabia que a mãe não gostava, sabia que aquilo representava sofrimento para sua mãe

— Eu estava distraída mãe, desculpa — Respondeu tentando se livrar do assunto

— Presta atenção — Rose falou severa, mas reparou que Rafaela estava estranha, se aproximou e sentou-se ao lado dela na piscina— Você está bem?

Rafaela olhou para a água, não respondeu, Rose continuou

— Ela está bem? — Repetiu a pergunta, agora se referindo à Amanda

Rafaela fez que não com a cabeça

— Entendo — Rose disse — Entendo — Repetiu o que falava, tentava pensar em algo, mas não conseguia, era uma situação péssima. — Eu posso fazer alguma coisa para ajudar? — Rose perguntou solícita

Rafaela fez que não com a cabeça, mas num movimento mais rápido, olhou para a mãe e sorriu entristecida

— E como você espera lidar com isso? — Rose perguntou curiosa

— Lidar como? — Rafaela perguntou sem entender

— Bem, da última vez, você — Rose esperou, era um assunto delicado aos olhos dela — Você sabe não? não aceitou bem

— A morte mãe, eu sei, eu me lembro — Rafaela respondeu voltando a olhar para a água

— Naquele dia você travou — Rose disse — Lembra disso?

— Não me lembro exatamente, mas sei o que aconteceu, vocês me falaram que eu fiquei dois dias né, eu não tenho lembrança disso, é como se o tempo tivesse sumido, foi bem parecido quando eu levei o tiro na cabeça — Rafaela falou relembrando do fato

— Entendo — Rose disse pensativa — Você falou uma coisa antes de…

— Travar — Rafaela completou

— É — Rose continuou — Você lembra o que era?

— Vida e morte são abstratos não quantificáveis — Rafaela respondeu

— E o que é isso? — Rose parecia curiosa — Eu sempre quis perguntar, mas não sabia se você lidava bem com isso, mas agora você está adulta, madura — Rose pensou um pouco — Eu procurei isso e achei, é aquela revista do sorriso, do cara azul esquisito com o pinto de fora

— Adulta — Rafaela respirou fundo — Acho que agora não sou mais retardada né? — Sorriu e riu baixinho — Pelo contrário né mãe, sou esperta demais

— E qual é o problema de ser esperta demais? — Rose perguntou sem entender — Você é tão inteligente quanto seu irmão, seu QI é o mais alto que conhecemos

— A ignorância é uma dádiva Dona Rose — Rafaela falou com um tom mais calmo — Eu sabia exatamente o que ia acontecer assim que vi os exames da Manda, é uma questão de probabilidade

— Mas milagres podem acontecer — Rose disse passando a mão na cabeça da filha

— Mas são improváveis — Rafaela concluiu

— Não impossíveis — Rose completou

Rafaela sorriu e tomou ar

— A frase do cara azul com o pinto de fora significa que um corpo morto e um corpo vivo tem a mesma quantidade de átomos, pesam o mesmo, tem a mesma quantidade de energia elétrica remanescente, não há diferença, ou seja, não tem como trazer de volta a vida pois não se conhece o que é vida ou morte. — Rafaela explicou — Logo, não dá para quantificar

— Uau! — Rose disse pensativa, fazia tempo que não conversava com a filha, ainda mais conversas profundas assim, resolveu tentar

— Li em algum lugar que quando morremos o corpo perde exatamente 21 gramas, que é o peso da alma

Rafaela sorriu

— Eu vi isso também, religiosos gostam dessa hipótese, mas é um resultado viciado, poucos dados, os testes foram refeitos com mais pessoas e não se chegou ao mesmo resultado — Rafaela explicou

— Rafa, Dona Rose — Amanda se aproximou — Vamos preparar as coisas, está tarde já

— Vamos amor! — Rafaela respondeu carinhosa, se levantou e ajudou a mãe a se levantar.

Na cozinha começaram a cozinhar de tudo, por horas

— Todo mundo tem que ajudar — Rafaela falou para Amanda e Natali enquanto batia a massa de um bolo — Vou fazer um bolo, o peru tá no forno já e vocês tão de boa, pode vir aqui — Ordenou.

— Ah, tá bom, dá um tempinho aí mana — Natali falou cansada — Não pega pesado, é natal!

As meninas foram ajudar, já haviam algumas pessoas na cozinha preparando tudo, seria a ceia de natal, farta, com muita comida para toda a família e amigos.

Elas fizeram dezenas de pratos, a ceia de natal foi incrível, comeram e beberam a vontade, ficaram conversando até de madrugada ouvindo música, dançando, cantando, brincando na piscina, o calor estava forte.

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Rafaela Khalil é Brasileira, maior de idade, Casada. Escritora de romances eróticos ferventes, é autora de mais de vinte obras e mais de cem mil leitores ao longo do tempo. São dez livros publicados na Amazon e grupos de apoio. Nesse blog você tem acesso a maioria do conteúdo exclusivo.